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Filme sobre o Hotel Cambridge aborda moradia e refúgio

Por Vilma Balint

Adus promoveu debate no Cine Olido com a exibição de making of do fime “Era o Hotel Cambridge”, que mostra particularidades da rotina de moradores de ocupação no centro, entre eles, um grupo de refugiados

Em fevereiro do próximo ano, o circuito comercial de cinema contará com uma produção que aborda a relação entre movimentos de moradia no Centro de São Paulo e a questão do refúgio: o filme “Era o Hotel Cambridge”, com foco no dia a dia dos atuais moradores do Hotel Cambridge, no centro de São Paulo. Desapropriado em 2011, o edifício tem hoje mais de 100 famílias de moradores, incluindo um grande número de imigrantes refugiados. A trajetória desse grupo é um dos principais pontos abordados no filme que, além da tensão diária pelas ameaças de despejo, retrata pequenos dramas, alegrias e diferentes visões do mundo dos ocupantes.

No dia 23 de agosto, o Circuito SpCine Olido recebeu o debate com o tema “Morar no Refúgio”, com a exibição do making of do filme, dirigido por Eliane Caffé. Organizado em parceria com o Adus – Instituto de Reintegração do Refugiado, o debate teve a participação de imigrantes que também estrearam como atores na produção, entre eles, o congolês Luambo Pitchou e o palestino Isam Ahmad Issa. Carmen Silva, líder da Frente de Luta por Moradia (FLM), foi outro nome presente ao debate, além de Eliane Caffé, Carla Caffé e Carla Mustafa, coordenadora voluntária do núcleo de relação do refugiado do Adus.

Elaborado de maneira colaborativa, o filme não contou com um roteiro fixo e foi construído durante o processo de filmagem, como explica a diretora Eliane Caffé. Dessa maneira, atores anônimos contracenaram com nomes importantes para o cinema nacional, como José Dumont e Suely Franco, talvez os dois mais famosos do set de filmagens. Fizeram parte desse processo a FLM, o GRIST (Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem Teto), que inclusive foi formado durante as filmagens, e a Escola da Cidade, que se responsabilizou pela decoração e mobiliário dos espaços comuns do Cambridge. O filme já recebeu prêmios em festivais internacionais, como o San Sebastian, da Espanha, e o Hulbert Buls Fund, da Holanda.

O making of, que também pode ser considerado um documentário, de acordo com a diretora Eliane Caffé, reúne imagens de manifestações das quais os moradores participaram em prol de moradia, o momento da ocupação de edifícios próximos, como o localizado na Rua do Ouvidor, e a rotina entre as filmagens realizadas no Cambridge.

“A grande diferença entre um refugiado e um imigrante que sai do país em busca de outro tipo de vida é que o refugiado fica com a cabeça no país de origem”, afirmou Pitchou. “Além disso, esse imigrante enfrenta a questão do endereço quando chega ao país. Ele precisa de, pelo menos, um ano para regularizar a sua situação. E, durante esse tempo, precisa ter algum lugar para morar, para as providências necessárias”, afirma o congolês. “A ocupação é a opção de acolhimento e moradia para esse imigrante”, ressalta.

As questões econômicas que permeiam o tema do refúgio e suas causas também estiveram presentes na conversa ocorrida na última terça. O conflito no Congo, por exemplo, tem como uma de suas motivações financeiras a extração de minérios necessários à fabricação de eletrônicos que são objeto de consumo, como telefones celulares e videogames. Para Carmem Silva, membro da FLM e líder da Ocupação Cambridge, ao acolher um refugiado, o movimento por moradia cumpre o papel de acolher uma pessoa excluída de políticas públicas. “Na condição de militante ativista, somos todos refugiados”, enfatizou.

Ao abordar a situação política dos refugiados no Brasil, Carla Mustafá, do Adus, explicou que esse público tem proteções por conta da vulnerabilidade de suas situações, mas eles enfrentam as mesmas dificuldades de grande parte da população, tendo como desvantagens a questão do domínio do idioma e outras limitações, como o veto à participação de estrangeiros em manifestações políticas – o que afeta diretamente esses moradores na reivindicação de questões relativas à moradia, por exemplo.

Foto: Divulgação

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