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AAhla Woo Sahla (Sejam bem-vindos)

“Com a chegada dos refugiados sírios, a comunidade árabe está lutando para oferecer o mesmo tratamento que receberam quando chegaram ao Brasil.”

11.085,98 km, essa é a distância entre Síria e Brasil. Uma viagem longa e árdua, durante a qual os passageiros carregam em suas malas uma esperança de um novo começo e a incerteza do que vem pela frente. As referências, lugares e memórias de uma Síria ficaram guardadas nas lembranças, que agora parecem longe demais. O cheiro de suas casas, os hábitos e até mesmo o vento que bate no cabelo talvez nunca mais seja o mesmo. Todos os dias, milhões de pessoas cruzam fronteiras, e línguas e culturas são compartilhadas neste ir e vir de nacionalidade. Cada um com seus motivos, cada um com seus sonhos e necessidades.

Hoje, quando falamos de sírios no Brasil, é preciso destacar que sua chegada, em sua grande maioria, é na condição de refugiado. “A partir de 2011, quando os conflitos pátrios foram se tornando cada vez mais acirrados, os sírios iniciaram uma diáspora em direção a outros países, em especial aos vizinhos Líbano, Jordânia, Turquia e Irã, onde uma população estimada em mais de 2 milhões de pessoas se encontram sobrevivendo em meio a muitas dificuldades”, explica Débora Corrêa de Siqueira, de origem árabe, que faz doutorado na Universidade Federal do ABC (UFABC) no Programa de Ciências Humanas e Sociais, com foco na análise das Políticas Públicas para Refugiados Sírios em perspectiva comparada no plano internacional. Para que existam medidas de apoio, é importante diferenciar um refugiado de um imigrante. Segundo o professor Gilberto Rodrigues, especialista em Relações Internacionais e professor da UFABC, os refugiados são grupos que sofrem com a guerra, com perseguições por motivos raciais, religiosos, de nacionalidade. Já os imigrantes são chamados de migrantes econômicos, pois vão atrás de uma melhor qualidade de vida e novas oportunidades. “Os sírios, por exemplo, não pensam em voltar para suas terras, mesmo quando a guerra já tiver acabado, pois seus traumas o impedem de voltar e muitos não vão querer passar por aquelas memórias novamente”. Os imigrantes possuem motivos diferentes, pois podem escolher se voltam ou não a suas terras natais. “No caso da Síria, mesmo que suas terras cessem a guerra, o país foi completamente destruído, fica inviável voltar”, finaliza o professor Gilberto.

No Brasil hoje milhões de famílias são árabes ou descendentes. São muitas trajetórias que se cruzam, que se reconhecem e se conectam. E foi nesta conexão de histórias que muitas ajudas surgiram. Muitas vindas da própria comunidade árabe que já vivia no Brasil. Um grande engajado é o professor Samir El-Hayek, libanês e responsável pela tradução do Alcorão para o português, que chegou ao Brasil em 1954, logo após o final da Segunda Guerra Mundial. “O que podemos fazer a gente faz. Tentamos achar emprego pra eles. Mas é muito complicado, pois não falam nem o idioma. A SBM (Sociedade Beneficente Muçulmano) conseguiu quase 500 empregos, na maioria em empresas árabes”, conta Samir. Essa situação nem sempre foi assim. A socióloga Aline Khoury, também de origem árabe, é doutoranda em Desenvolvimento Social na Universidade de Cambridge, além de pesquisadora da área de migrações, e explica que os sírios que vieram por volta do século passado ocupam hoje posições de sucesso em geral e tiveram forte inclusão social. Mas hoje, devido ao cenário econômico atual, essa integração mudou. “O outro fluxo migratório mais recente, motivado pela instabilidade política após a crise síria dos últimos cinco anos, chegou ao país em um contexto bastante distinto. Boa parte sofreu perseguições diretas de proporções trágicas, chegando em um cenário em que o Brasil já não apresenta as mesmas condições de empregabilidade e crescimento. As grandes cidades já não apresentam o potencial de crescimento de tantas décadas atrás”, disse. Para amenizar este impacto negativo da economia, a SBM possui vários programas de ajuda com a documentação, como CPF, RNE, Carteira de Trabalho, etc.; distribuem cestas básicas, roupas e calçado, agasalhos e cobertores no inverno, brinquedos para as crianças, até utensílios domésticos entram na lista de ajuda. “Além de oferecer itens básicos de higiene, oferecemos cursos de língua portuguesa para os estrangeiros e árabe para os interessados”, explica o professor Feres Fares, filho de libaneses e que também trabalha na SBM. O trabalho da mesquita ajuda hoje 2 mil famílias refugiadas.

Os laços da língua, da etnia e da cultura unem a comunidade árabe neste momento de solidariedade, palavra que marca o trabalho destes que lutam pela integração. “Vale lembrar que não podemos esquecer o que os nossos pais e avós sofreram. Eles tiveram muitas dificuldades, algumas pessoas passam até por humilhações. O nosso trabalho na mesquita é trazer um pouco de dignidade a essas famílias”, afirmou. Feres explica ainda que esta atividade é muito difícil, já que os refugiados carregam em suas bagagens os traumas vividos que nunca vão ser esquecidos. “Estamos aqui para ajudá-los e para poder oferecer um sentimento de lar, conforto e esperança para esses que viajaram distâncias enormes para reconstruir suas vidas”. Samir completa que “toda e qualquer pessoa necessita de um lar e paz, e é isso que estamos fazendo”.

Essa mistura deixou no Brasil uma forte influência árabe que é possível notar em nomes de ruas, na culinária, na música. Muitos políticos, empresários e imigrantes árabes também tiveram um grande destaque social e importância. “Autoridades de grandes cidades são descendentes de sírios e libaneses e trouxeram avanços para diversos setores, especialmente têxtil, de comércio e empreendedorismo. Além disso, clubes e associações reuniram árabes e brasileiros, assim promovendo a cultura árabe para além dos migrantes”, explica Aline.

AAhla Woo Sahla (Sejam bem-vindos)!

Texto: Eloá Vital | Arte: Ryan Bussi

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