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Destino: Empatia

Jornalista cria guia de viagem por países árabes para conhecer a realidade das mulheres refugiadas

Campo com mais de 20 mil refugiados Yazidi, uma minoria de cultura politeísta anterior ao islamismo, principais vítimas do Estado Islâmico. (Foto: Marco Gomes)

Sansa é uma refugiada síria de apenas cinco anos que, para fugir da guerra, andou por quatro dias até a Jordânia, apesar de ter uma deficiência na perna. Talita Ribeiro, brasileira, é diretora de comunicação de uma empresa de viagens e tem muitos carimbos no passaporte, mas só recentemente garantiu o primeiro da Jordânia.

Foi da curiosidade de Sansa em saber o que tinha por baixo do curativo no pulso de Talita que nasceu o conceito “turismo de empatia”. “Está tudo bem, não precisa se preocupar, vai passar”, dizia Sansa a Talita. O que ela não sabia é que o curativo escondia uma tatuagem em hebraico. “Ela fez isso para um machucado que nem sequer existia. Essa menina se colocou no meu lugar e fez o que ela achava que ia me fazer sentir melhor”, conta Talita com a voz embargada com a lembrança.

A história dessa viagem foi narrada no livro recém-lançado “Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio”. Até então, ela nunca havia se interessado pela região e tinha visitado apenas Israel, um ano antes, em uma viagem turística aproveitando o fato de estar em Roma. O conceito foi criado por Talita, mas o turismo de empatia já é feito por muita gente. “Com o livro descobri que tem mais gente no mundo fazendo turismo de empatia, inclusive nas viagens de turismo normal. As pessoas têm curiosidade de conhecer as periferias, a realidade do outro, e não só os pontos turísticos”.

Meses depois, quando voltou de Israel, o tema refúgio invadiu sua vida por meio de uma reportagem sobre uma mulher que tinha escapado do Estado Islâmico e conseguido cruzar a fronteira da Síria com o Curdistão. “Tinha uma foto linda dessa mulher em cima de um carro tirando o nicabe – véu tradicional que cobre o corpo e só revela os olhos – e por baixo um vestido todo colorido. Aquela foto era tão cheia de esperança e liberdade”, relembra.

A curiosidade dessa brasileira foi acionada e ela partiu para uma viagem que mudaria toda sua vida e o modo de fazer turismo. Talita descobriu que o Estado Autônomo do Curdistão na verdade não é e nunca foi reconhecido como país, mas que é hoje uma das principais linhas de frente contra o Estado Islâmico. E não precisou ir muito a fundo para descobrir o que traçaria toda sua viagem e posteriormente seu livro: a força da mulher. “Quando vi que as mulheres lutavam na linha de frente do exército curdo, pensei: Meu Deus, existe um lugar no meio do Oriente Médio que tem muito mais igualdade de gênero que muitos estados brasileiros, eu preciso conhecê-lo.”

A partir de então a rota e o tema estavam traçados. “Eu decidi que queria conhecer as mulheres que estavam empoderando e que eu iria para quatro lugares: Jordânia, Iraque, Líbano e Turquia”, disse. Talita foi atrás de movimentos sociais que estavam de alguma forma auxiliando as mulheres, seja por meio da educação ou do trabalho autônomo, e foi assim que ela se envolveu com as refugiadas. “A gente sempre ouve falar da crise de refugiados na Europa. 1 milhão de pessoas, isso parece muito, mas é 1 milhão de pessoas para um continente com países de condição financeira muito melhor do que os países árabes que recebem todos os dias um número muito maior de refugiados. O que a Europa vive é fichinha comparado com a situação dos países árabes”, avalia.

Campo de refugiados mantido pela igreja católica, para refugiados católicos vítimas do DAESH-ISIS. (Foto: Marco Gomes)

Apesar da guerra, Turismo de Empatia é um livro de esperança. Somente no fim da viagem, já no Iraque, Talita decidiu que escreveria o livro. Todas as anotações eram, na verdade, e-mails que ela enviava durante as noites para acalmar a família e o marido, que ficaram no Brasil. “Eu via naquelas mulheres uma oportunidade histórica de mudar o rumo de toda a região. É uma geração de meninas e mulheres solteiras ou viúvas por conta da guerra, uma situação muito triste, mas por outro lado elas de repente podem escolher sobre o próprio destino. Querendo ou não, elas têm sonhos diferentes dos homens, elas podem trabalhar no sentido da conciliação”.

Além de ter histórias emocionantes dessas mulheres guerreiras, o livro também se tornou um guia de viagem. Mas Talita, você não teve medo? Claro que sim, Talita usou o medo a seu favor e se muniu com planos B, C e D e até aulas de krav maga, um sistema de combate israelense, ela teve antes da viagem. “No segundo dia na Jordânia, o meu grupo era formado por uma brasileira e duas chinesas que não falavam inglês. Após conhecermos as ruínas romanas de Jerash, nosso guia começou a ir em direção à fronteira da Síria para nos levar até as ruínas em Pella, e eu comecei a achar que iria ser vendida na fronteira e passei a fazer planos, avisar minha família, dizer que eles teriam que agir muito rápido. Decidi que iria dar um golpe de krav maga e fingir um ataque epilético. No fim, era só um lugar turístico e fiquei muito amiga desse guia depois”.

Quando voltou para o Brasil, Talita conseguiu, em menos de 2 meses por meio de uma vaquinha online, a verba para lançar o livro. Todo o dinheiro da venda foi enviado para as ONGs Família Aziz, na Jordânia, e Top Brazilian Sport Academy, no Curdistão Iraquiano. “Vou voltar para o Oriente Médio agora em maio, devo ficar dois meses lá fazendo projetos sociais com mulheres e também com crianças. Algo que me assustou muito é que nos abrigos não há brinquedos, então a ideia é ensinarmos brincadeiras brasileiras que não precisem de brinquedo, como amarelinha, passa-anel – com pedrinhas, claro -, ciranda e outras”.

O material do projeto é humano, mas Talita está em busca de parcerias com companhias aéreas, hotéis e seguros de viagem. “A gente está numa crise de sentido pra vida, fica fazendo várias coisas que não quer. Trabalha com o que não quer, vive relacionamentos pela metade, sente muito medo de tudo e de todos. Se você der um passo ao contrário, em direção à coragem, talvez isso te deixe viver mais livre.”

Texto: Jéssica Cruz | Fotos: Marco Gomes

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