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Escritores perseguidos recebem ajuda para viver em outro país que ofereça segurança

Brasil é o primeiro país da América do Sul a instalar Casa Brasileira de Refúgio (CABRA) para escritores estrangeiros perseguidos

O Poema
(…)
Na minha língua
quando todos se calam
de repente nasce um policial
na minha língua,
por trás de cada bicicleta assustada
sentam-se três mil palavras mortas
em minha língua
a gente murmura as confissões
vai vestida de sussurros pretos
é sepultada
em silêncio
minha língua
é silêncio
quem traduzirá meu silêncio?
Como vou atravessar esta fronteira?

Mohsen Emadi, Sylvie Debs e Diana Vallejo participam de seminário no Centro de pesquisa e formação do SESC” width=

Os versos do poeta e tradutor iraniano, Mohsen Emadi, retratam os anseios e questionamentos de muitos escritores que são obrigados a sair do país de origem por perseguições. Emadi começou a escrever poesia aos seis anos de idade, mas na adolescência abandonou o estilo tradicional e passou a produzir textos modernos, algo que incomodava a sociedade iraniana. Nascido em uma vila ao Norte do Irã, mudou-se para Teerã para fazer faculdade. Na capital conheceu outras pessoas que, como ele, eram contra a política conservadora do país. O poeta se tornou um ativista e compreendeu o quanto era difícil ter liberdade de expressão e exercer a arte da escrita no próprio país. Em 2009, após a reeleição para presidência de Mahmoud Ahmadinejad, Emadi participou dos protestos que apoiavam a oposição e acreditavam em fraudes na votação. Ele não queria sair do país, desejava lutar dentro do Irã, mas o perigo de ser preso fez com que buscasse moradia em outro lugar. “Percebi que se continuasse no Irã seria preso e isso poderia ser bem pior”, conta Emadi, que vive em uma casa para escritores perseguidos na Cidade do México após passar pela Finlândia, República Tcheca e Espanha.

No último dia 4 de novembro o poeta contou sua história no seminário sobre a liberdade de expressão e a criação de casas brasileiras de refúgio para escritores perseguidos. O evento aconteceu no Centro de pesquisa e formação do SESC de São Paulo e também contou com a presença da escritora Diana Vallejo, que foi perseguida em Honduras. As casas de refúgio integram o ICORN (International cities of refuge network), organização internacional de sócios independentes, que oferecem lares seguros para escritores continuarem escrevendo livremente longe do país de origem e com segurança. A ICORN trabalha em conjunto com o Clube Internacional de escritores PEN (Poetas, Ensaístas e Romancistas, em inglês) que é uma organização não-governamental que defende os direitos humanos e a ideia de que a liberdade de expressão e a literatura são inseparáveis.

Atualmente, 45 cidades participam da ICORN, sendo a maioria na Europa e um grande parceiro na América latina, que é o México. O seminário ocorrido no SESC apresentou a associação CABRA (Casas Brasileiras de Refúgio) fundada por Sylvie Debs, representante oficial da ICORN no Brasil, que pretende conseguir cidades brasileiras para abrigar esses escritores. “Estamos em contato com as prefeituras de algumas cidades para fazermos parceria”, conta Debs. Ela também relata que já conseguiram o apoio de uma cidade mineira, onde o escritor poderá exercer ações na universidade como professor visitante, a questão é que essa função só permite a estadia por quatro meses, e o trabalho da ICORN é baseado em 1 a 2 anos para que o escritor consiga reconstruir a vida e ser independente. O próximo passo é conseguir com que a vivência no Brasil não se restrinja somente a esses poucos meses. Com a consolidação do projeto, o Brasil passa a ser o primeiro país da América do Sul e ter cidades de refúgio.

Para ser acolhido pela ICORN o escritor precisa comprovar que realmente é perseguido no país de origem. Após a comprovação, ele é enviado para uma cidade segura e recebe ajuda para resolver questões legais e se integrar na comunidade que o recebeu. O quesito mais complicado é que as regras de imigração mudam de país para país. “Já teve caso que o refugiado não foi aceito em uma cidade europeia, mas foi aceito no México”, exemplifica Helge Lunde, diretor executivo da ICORN. As pessoas acolhidas são de diversos países: Somália, Irã, Honduras, Vietnã, por exemplo.

Texto: Priscila Pacheco / Foto: Erika Omori

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