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Exposição retrata mulheres refugiadas no Brasil

Dados do ACNUR mostram que 30% dos refugiados no País são mulheres

Foto do projeto Vidas Refugiadas

A nigeriana e professora de inglês Nkechinyere Jonathan lecionava como missionária em uma escola mista localizada no norte de seus país. Porém, o grupo terrorista Boko Haram proibiu a educação de meninas e mais de 200 delas foram sequestradas, ocasionando o fechamento de escolas locais. Jonathan resistiu e permaneceu dando aulas em igrejas e assim foi considerada uma inimiga do regime e perseguida por aqueles que queriam implementar o Estado Islâmico no país. Hoje Jonathan mora no Brasil e é uma das oito mulheres cujas fotografias fazem parte do projeto Vidas Refugiadas, lançado no último dia sete de março, na livraria Fnac da Avenida Paulista.

A data escolhida para a abertura da exposição, véspera do Dia Internacional da Mulher, é simbólica. Segundo dados da Agência da Onu para Refugiados (ACNUR) no Brasil, as mulheres representam cerca de 30% entre os refugiados que estão no país.  Os 16 retratos feitos pelo fotógrafo Victor Moriyama  não possuem somente o objetivo mostrar  as histórias das refugiadas e solicitantes de refúgio, mas também de trazer visibilidade ao tema do refúgio e à perspectiva de gênero. “Decidimos colocar essas mulheres como protagonistas de suas histórias. Nossa ideia é que as pessoas se apropriem desse material e que a gente consiga pautar a questão do gênero”, conta a idealizadora do projeto Gabriela Ferraz, advogada e mestra em Direitos Humanos. No lançamento da exposição, que ficará aberta ao público durante o mês de março, Gabriela mediou um debate que contou com a presença do Secretário Nacional de Justiça, Beto Vasconcelos, o representante da ACNUR no Brasil, Agni Castro e a nigeriana Nkechinyere Jonathan.

Agni Castro, do Acnur, Gabriela Ferraz, idealizadora do projeto e Beto Vasconcelos, presidente do Conare

Agni Castro ressaltou que o Dia Internacional da Mulher traz uma série de lutas e mortes de mulheres que ousaram desafiar a estrutura vigente e lutar por seus direitos. Para ele, as fotografias do projeto Vidas Refugiadas fazem parte da história da luta feminina. “Não são apenas 16 quadros, são histórias de vida que mostram que,  apesar da carga de sofrimento, as mulheres estão dizendo ‘Aqui estamos”. O secretário Nacional de Justiça Beto Vasconcelos complementou: “Vivemos hoje a pior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial e as mulheres representam um grupo de alta vulnerabilidade. Por isso é importante que políticas públicas permitam que essas mulheres sejam acolhidas. É muito tocante ver a força e a capacidade de reconstrução da mulher. O mundo precisa urgentemente de diálogo e tolerância sob a pena de nós morrermos em trincheiras que nós mesmos cavamos e não podemos sair”.

Sylvie Mutiene Ngkang e sua família, por Victor Moriyama

Questionada sobre suas expectativas ao chegar ao Brasil, a nigeriana Jonathan disse: “Quando vim para o Brasil, meu primeiro objetivo era conseguir segurança, o que eu consegui, e também me integrar. Queria ser feliz com meus amigos e minha família”. Para ela, é importante diferenciar um imigrante comum de um solicitante de refúgio. “Alguns imigrantes tem como cuidar de si mesmos enquanto outros não possuem nada e vem apenas com o próprio corpo”. Jonathan citou o aprendizado de uma nova língua e encontrar um trabalho como algumas das maiores dificuldades ao entrar em outro país. A refugiada também mostrou preocupação com iniciativas que auxiliem o empreendedorismo de refugiados, ao que Vasconcelos declarou que o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE) irá promover em São Paulo um curso de empreendedorismo.

Vasconcelos declarou que a capacidade de gerar renda é essencial para os refugiados sustentarem a si mesmos e suas famílias. “Em um momento em que se enxerga refugiados como uma ameaça é importante que resistamos a essa medo. Superá-lo é o que nos fará optar pela humanidade em vez da barbárie”, finalizou.

Texto: Aline Khouri / Fotos: Victor Moriyama/Divulgação

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