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Jornalista lança livro sobre refugiados que terá lucro revertido para o Adus

Obra é uma ficção científica ambientada no Brasil do século 22

Ficção científica sobre refugiados do futuro ajuda refugiados no Brasil do presente

O escritor e jornalista Guilherme Solari acaba de lançar, na Amazon, a obra “Imaculada Concepção”, ebook independente de ficção científica que trata sobre a questão do refúgio.

O livro é ambientado em um futuro no qual o hemisfério norte foi destruído por uma guerra nuclear e milhões de refugiados americanos e europeus fogem para a megalópole de Megasampa, a expansão urbana formada pelas áreas combinadas de São Paulo e Rio de Janeiro no Brasil do século 22.

Guilherme, que também é autor de “As Crônicas do Cascavel” (Multifoco) e coautor da peça “Fogo”, entre outros trabalhos, decidiu doar todo o lucro obtido pelas vendas da obra até o dia 26 de junho ao Adus em uma homenagem à semana do Dia Mundial do Refugiado. O livro está disponível pelo preço de R$ 10,00 aqui.

Confira o bate-papo a seguir, no qual Guilherme conta mais sobre seu projeto.

Como foi que você se interessou pelo tema do refúgio e por que decidiu escrever um livro sobre isso?
Pode-se dizer que o Imaculada Concepção é culpa do Donald Trump. Não apenas dele, mas do discurso xenófobo contra mexicanos, muçulmanos e minorias que ele dissemina. Eu acho um tipo de insanidade uma nação de imigrantes como os Estados Unidos depois de alguns séculos se tornar tão intolerante. Então eu pensei como, do jeito que a história é, no futuro os ricos de hoje poderiam voltar a ser os refugiados de amanhã. Pensei nesse cenário como pano de fundo no livro.

Eu considero a xenofobia um tipo de insanidade porque, se a humanidade espera sobreviver, é preciso entender que países são só linhas em um mapa, o que é real é que temos um único planeta. Vivemos em uma época de problemas globais, como mudança climática, possibilidade de guerra nuclear e ondas migratórias em massa. Não adianta tentar transformar o seu país em um condomínio fechado e tentar se esquecer do resto. O problema um dia vai chegar até o seu castelo de faz-de- conta.

Como foi o processo de desenvolvimento e escrita da história?
Eu costumo planejar toda a história antes de escrever e recheei o livro com referências de ficção científica, em particular do cyberpunk. Dei um toque de noir no protagonista, um detetive semi-aposentado que é chamado a contragosto pelas autoridades para resolver uma série de assassinatos, que acabam revelando uma conspiração de interesses nebulosos por trás.

No que toca aos refugiados, eu me baseei em livros sobre refugiados em Hong Kong (um dos países que mais tem solicitantes no mundo), tráfico humano no Japão, região da fronteira entre os Estados Unidos e México e na própria situação de refugiados e imigrantes no Brasil. Os refugiados dos Estados Unidos e da Europa no livro sofrem os exatos mesmos problemas que os do Haiti, República Democrática do Congo e Síria hoje: descaso das autoridades, medo de deportação, condições sub-humanas de emprego, dificuldades econômicas etc.

Quando e de que forma você conheceu o trabalho do Adus?
Já há alguns anos eu sigo o trabalho do Adus de longe por meio de uma amiga que é voluntária. Sempre quis fazer algo para ajudar também, mas confesso que nunca tinha feito por inércia e por falta de tempo. Uma desculpa, claro, como se os voluntários de verdade não tivessem vidas próprias e mesmo assim se dedicam a ajudar. Mas quando eu terminei o livro eu pensei: “se não doei o meu tempo até agora, posso doar retroativamente o tempo que eu passei escrevendo o livro”. É a minha forma de tentar ajudar.

Embora seja uma ficção, tenho a impressão de que Imaculada Concepção é o trabalho em que você mais lida com a “realidade” e com um assunto tão delicado. Isso está certo? Como esse trabalho se diferencia dos seus trabalhos anteriores?
Quase tudo que eu escrevo tem um toque de humor, eu acho a sátira um excelente artifício para ridicularizar o que você acha que está errado na sociedade. No Imaculada Concepção, por exemplo, a família do protagonista está horrorizada porque a filha começou a namorar um androide! E ouvimos aquele mesmo discurso de “não tenho nada contra androides, só não quero um namorando a minha filha”, que poderia muito bem ser direcionado a um negro, nordestino, ou qualquer minoria que os “cidadãos de bem” não aceitam no seu meio.

Ou seja, acho que até assuntos delicados podem ser tratados com humor. A questão é se você está tirando sarro do guarda com o porrete na mão ou do pobre coitado que ele está espancando.

Seu livro é o primeiro de uma série. Pode contar algo sobre como ela foi pensada ou adiantar algo dos próximos?
Cada livro tem um caso completo do detetive Cascavel, cada um com um tema diferente de pano de fundo. O segundo se chama “O Assassinato do Pro Gamer”, e deve ser lançado no segundo semestre. Ele fala com a histeria midiática em um mundo no qual as redes sociais são até mais onipresentes do que no nosso. O terceiro livro chama “Recursos Humanos” e é sobre o impacto psicológico da superpopulação na mente humana. O quarto livro, “Os Cavaleiros do Ad-Pocalipse”, lida com os avanços da inteligência artificial. E o último tem um tema ainda secreto, mas ele fecha toda a saga do detetive Cascavel.

Embora a ficção científica problematize inúmeras questões sociais, políticas etc ainda existe preconceito em torno do gênero. O que você diria para incentivar as pessoas que pensam dessa maneira?
Eu diria para ter em mente que, por mais fantasiosa que seja a premissa, você está sempre lendo sobre o seu mundo. A boa ficção científica tem o poder de nos fazer enxergar o nosso mundo como estrangeiros em um novo país.

Como define a escritora Ursula K Le Guin: “O papel da ficção científica não é prever o futuro, mas contemplar futuros possíveis”. Quando um autor coloca seus sonhos sobre o futuro em uma história de sci-fi, isso se torna uma utopia, já quando coloca seus medos, uma distopia. Para mim a ficção científica é uma das melhores ferramentas mentais para tentarmos prever, e assim evitar, um futuro que não queremos para nós ou para nossos filhos.

Texto: Aline Khouri / Imagem: Reprodução

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