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Mãe busca ajuda para trazer os filhos do Congo

Texto: Jéssica Cruz / Foto: MONUSCO Photos sob licença CC

Com aumento dos protestos e mortes no país, refugiados tentam garantir reunião familiar no Brasil

A cada 200 crianças no mundo, uma está em situação de refúgio. O dado é do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e foi divulgado em setembro deste ano no relatório Uprooted: The Growing Crisis for Refugee and Migrant Children (em português: Desenraizadas: O crescimento da crise para crianças migrantes e refugiadas). De acordo com o levantamento, são mais de 50 milhões de crianças fora de seus países, sendo que 28 milhões delas estão fugindo de situações de conflito. Além disso, o relatório mostrou que 6,3 milhões das crianças migrantes e refugiadas estão nas Américas, 15% das quais situadas na América Latina.

O número de crianças que precisaram fugir de suas casas por causa da guerra em seus países é assustador, mas a guerra também gerou outro problema social tão grave quanto esse: as crianças órfãs. Na República Democrática do Congo, por exemplo, há 4 milhões de crianças que perderam os pais, ou pelo menos um deles, e estão desamparadas. Essa é a situação dos três filhos de Amanda*, congolesa que fugiu para o Brasil em 2014 e, pela falta de condições financeiras e sem saber o que encontraria no Brasil, precisou deixá-los no Congo.

Amanda trabalhava como enfermeira no Congo há 19 anos. De acordo com ela, após vazarem a informação de que a esposa do diretor tinha sido internada no hospital em Kinshasa, capital do país, médicos e enfermeiros passaram a ser perseguidos. “Eu não sabia nada sobre o Brasil, mas estava muito difícil no meu trabalho, quando alguém me falou para buscar a embaixada brasileira. Expliquei meu problema e me deram o visto”, conta. Como o dinheiro era apenas suficiente para a sua viagem, Amanda deixou os três filhos com o avô. O pai das crianças faleceu em 2006.

Em janeiro deste ano, o pai de Amanda faleceu. Sem parentes em Kinshasa, os filhos de Amanda foram abrigados pelo pastor da igreja. “Nos países africanos, a igreja é a base da união da comunidade. Então é muito comum eles se apoiarem e contarem uns com os outros”, ressalta a voluntária do Adus Viviane Burgareli, que, com a ajuda da voluntária Gabriela Bazzo, atende Amanda. Apesar da imensa vontade de trazer os filhos para o Brasil, a burocracia para conseguir o visto e o alto custo das passagens – cerca de R$ 3 mil por bilhete –, fez Amanda se ver cada vez mais longe desse sonho.

A situação se agravou em setembro deste ano, quando manifestações contra o governo congolês foram rigidamente reprimidas pelo presidente, deixando pelo menos 50 mortos de acordo com os grupos de oposição. “O principal objetivo da Amanda é trazer os filhos do Congo. É visível a ansiedade que ela sente por estar longe deles, sabendo que estão passando necessidades”, explica Viviane. O pastor e as crianças tiveram que abandonar a igreja em busca de segurança – uma preocupação constante, já que novas manifestações estão agendadas para o dia 19 de dezembro.

A República Democrática do Congo sempre esteve sob governos ditatoriais e exploradores. Após ter sido colônia do rei da Bélgica, Leopoldo II, no século XIX, e sofrer muitos golpes durante o processo de independência do país, o ditador Mobutu Sese Seko tomou o poder em 1965 e só saiu 32 anos depois com outro golpe, dessa vez organizado pelo pai do atual presidente, Laurent Kabila, em 1997.

Joseph Kabila, filho de Laurent, tomou posse em 2001, após o assassinato de seu pai por um segurança no palácio presidencial. Joseph foi eleito em 2006 e reeleito em 2011. Pela constituição, o país teria que realizar eleições em 20 de dezembro deste ano. Entretanto, o governo de Kabila não cumpriu o prazo para o decreto das novas eleições e agora é acusado de tentar se manter no poder à força.

Na última semana, Kabila anunciou um novo primeiro-ministro do partido opositor, Samy Badibanga, como tentativa de acalmar os ânimos no país. O presidente afirmou que as eleições serão realizadas, mas não especificou data e também ressaltou que não terão, de qualquer maneira, intervenções estrangeiras. A popularidade de Kabila é de apenas 7,8%. “Por agora está um pouco mais calmo, porque o governo está reprimindo e não está permitindo nenhuma manifestação, eles estão perseguindo os opositores. Também vieram estrangeiros para ajudar o governo, eles são basicamente de Ruanda”, explica Amanda. Em 1998, Ruanda invadiu o Congo, após o genocídio de 800 mil ruandeses da etnia tutsi em 1994. A guerra civil envolveu também Angola, Uganda, Zimbábue e Namíbia.

Diante deste cenário, a voluntária Viviane entrou em uma corrida contra o tempo para acelerar o processo de trazer os filhos de Amanda para o Brasil. “Eles já têm a autorização do Conare [Comitê Nacional para os Refugiados do Ministério da Justiça] para quando chegarem aqui no Brasil solicitar a reunião familiar. Então não é que eles estão vindo de uma forma qualquer, eles estão vindo com a permissão do governo brasileiro. Isso está sendo feito da melhor forma possível, e temos que ter paciência”, explica Viviane.

A normativa de 2013 de Reunião Familiar citada por Viviane é um direito dos refugiados que possuem o Registro Nacional de Estrangeiro – mas poucos refugiados têm conhecimento disso. Desde que a família esteja em território nacional, o refugiado pode solicitar ao Conare a extensão da sua condição de refugiado ao “cônjuge, ascendentes e descendentes, assim como aos demais membros do grupo familiar que do refugiado dependerem economicamente”. Isso significa que não é preciso solicitar o visto de refugiado separadamente na Polícia Federal, o que agiliza o processo e garante direitos iguais a todos os membros da família.

“Temos que resolver um problema de cada vez. Primeiro ela precisa conseguir um trabalho. Estou preocupada porque serão mais três pessoas para comer, três pessoas para viver… No início, ela vai ser o suporte para os três. Teremos que ir atrás de escola, aulas de português, trabalho para o mais velho. Ainda tem um bom caminho pela frente, mas o pior já passou”, diz Viviane, que faz parte do grupo de Facilitadores Sociais do Adus. O grupo conta com 60 voluntários, que já atenderam 154 refugiados de diversas nacionalidades. Cada voluntário atende um ou dois refugiados e funciona como um ponto de apoio desde sua acolhida e regulamentação, até em relação a necessidades básicas com doações de roupa e comida, passando por busca de trabalho e cursos. Em casos como o de Amanda, em que é preciso mais agilidade e atenção, dois voluntários se ajudam.

Como ressaltou Viviane, o pior já passou. As crianças já estão com o visto aprovado pela embaixada de Kinshasa. Com muito trabalho, Amanda guardou mais que a metade do dinheiro para comprar as passagens para o Brasil, mas precisa de ajuda para conseguir trazer os filhos. As doações podem ser em dinheiro, milhas ou descontos em passagens aéreas – qualquer ajuda será bem-vinda! O e-mail da facilitadora social Viviane é vburgareli@hotmail.com, para quem você pode pedir mais informações e saber como ajudar.

*A entrevistada pediu para não divulgar o nome para se proteger e também aos filhos.

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