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Procuram-se oportunidades

245 refugiados já foram inseridos no mercado de trabalho através do Programa Adus de Trabalho e Renda

Cinegrafista, pintor de obra, engenheiro, vendedor… A perseguição em seus países de origem fez com que cada imigrante aqui refugiado no Brasil deixasse não só as famílias, mas também a profissão que exerciam. Seja qual for o país de origem o investimento da viagem para o Brasil é alto. E, quase sempre, o objetivo final é ajudar no sustento da família que ficou e, em breve, trazê-los também. Por essa e outras razões conseguir um emprego é tão importante para o refugiado.

Ciente da dificuldade em encontrar uma oportunidade, o Adus (Instituto de Reintegração do Refugiado) criou o Programa Adus de Trabalho e Renda: “Ele existe desde que a associação foi fundada, há 3 anos. Até hoje, foram 245 imigrantes inseridos no mercado de trabalho”, conta Marcelo Lopes, coordenador do programa.

Voltada para o ramo de serviços e soluções empresarias e com um quadro de 600 funcionários, Robson Santos, diretor operacional, explica que a contratação dos imigrantes foi uma forma de suprir a lacuna de comprometimento que a empresa exige. “Essa geração Y no Brasil (jovens até 25 anos) é muito complicada em relação às responsabilidades básicas, e o imigrante de fato supriu essa lacuna. Eles não faltam, não tem nível de atraso, são muito comprometidos com o trabalho”, explica Santos.O grupo funciona por meio de acordos pontuais para contratação dos imigrantes. “São parceiros que não têm contrato fixo, mesmo que a contratação seja algo que se repita de maneira contínua”. Os setores varejista e metalúrgico são os que mais contratam, de acordo com Lopes. A empresa de logística R&I Solutions é um dos parceiros do Adus.

O congolês Dieu Merci Kanku Biselele é o primeiro da empresa em um ranking que avalia o desempenho dos funcionários e bonifica os mais bem qualificados. Há apenas quatro meses no Brasil e três trabalhando na R&I Solutions, Dieu já consegue se expressar em português e se tornou o interlocutor dos amigos africanos na empresa. “Atualmente temos vinte funcionários do Congo e de Angola. A empresa investiu R$ 200 mil em um alojamento provisório, para que eles possam se estabelecer, conseguir juntar um pouco de dinheiro para trazer a família e formar a própria residência aqui”.

Trazer a família é um sonho geral dos imigrantes. Dieu, que tem esposa e um filho, está com o irmão, Blaise Merci, que chegou ao Brasil há dois meses e também deixou a mulher e uma filha no Congo. Ambos esperam logo ter condições de trazer a família. O idioma é, com certeza, um limitador. Patou Lapuya Landa, também congolês funcionário da R&I Solutions, se expressa no seu idioma natal, o criolo, não fala português, mas já nos entende. “Quero criar futuro aqui no Brasil, casar e ter filhos aqui”, traduz Dieu à resposta do amigo quando estávamos falando sobre família.

Robson Santos fala das dificuldades e diz que é uma aposta arriscada, já que há uma adaptação dos imigrantes com a empresa e vice-versa. “Eles vieram de um país desolado pela guerra, então, ainda não sei se essa é a razão, mas eles são muito desconfiados com tudo. Todos os meses eu preciso explicar porque o INSS é descontado, é como lidar com crianças”, desabafa. “Mas o retorno é muito positivo, no ranking de desempenho dos funcionários eu tenho dois imigrantes no topo. Então, quando penso através de números, eu vejo que dá certo”. E mais: “Eu tenho família, converso com eles, vejo o quanto estamos conseguindo mudar a vida deles, mas eu preciso que dê certo como negócio, para justificar as contratações”.

Marcelo Lopes diz que a desinformação por parte dos empregadores sobre o tema refúgio é uma das principais dificuldades para que os imigrantes possam se inserir no mercado de trabalho. Papy e Mamy, também do Congo, ainda não tiveram a mesma sorte dos rapazes da R&I Solutions. Vieram para o Brasil com a filha de 4 anos, Priscilia, há poucos meses e estão cursando aulas de língua portuguesa de segunda a sábado para ampliarem as chances de emprego.

Apesar de todas as dificuldades, os imigrantes são unânimes quando questionados sobre o que mais gostam no Brasil: o povo. “A adaptação está sendo muito boa, as pessoas nos tratam muito bem”, conta Mamy. “Pessoas são muito gentis conosco”, afirma Blaise. Trabalhar não é apenas uma necessidade financeira, mas também uma forma de integração com o País.

Texto e fotos: Jéssica Cruz

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