Dia Mundial do Refugiado
20 de junho de 2017
Adus e MAM promovem Feira Étnica com palestras de sensibilização
28 de junho de 2017
Mostrar tudo

Refugiados têm dificuldade para trabalhar no Brasil

Nem sempre é possível validar o diploma do país de origem e, como alternativa, acabam atuando em outras áreas

Texto: Adriana Fonseca / Fotos: Karina Bacci/MAM

Receber refugiados é um privilégio. É a possibilidade de permitir que pessoas sem condições de permanecer em seus países retomem suas vidas. No caso do Brasil, temos um privilégio ainda maior, pois boa parte dos refugiados que aqui chegam são qualificados, têm formação acadêmica e experiência profissional.

Essa foi uma das reflexões de Marcelo Haydu, diretor do Adus – Instituto de Reintegração do Refugiado, no debate promovido pela instituição ontem (20) no MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo em celebração ao Dia Mundial do Refugiado.

Mas, apesar de boa parte dos refugiados que chegam ao Brasil terem capacidade de exercer suas profissões, na prática não é isso o que acontece. “Trabalho com refugiados há mais de sete anos e até hoje só vi um profissional conseguir validar seu diploma aqui. É um médico afegão que trabalha em Salvador”, diz Marcelo.

A burocracia é um entrave tremendo, mas há também o preconceito.

Marcelo explica que, como o Brasil está distante das principais zonas de conflito, fica caro para um solicitante de refúgio viajar para cá. Por isso, só vêm para o país quem tem mais condições financeiras, o que normalmente acontece com pessoas mais qualificadas.

O Brasil, aliás, só entrou na rota dos refugiados depois que as fronteiras de muitos outros países foram fechadas para essas pessoas. O fato de países da Europa, bem como os Estados Unidos, colocarem restrições para a entrada de refugiados fez aumentar o número de pedidos de refúgio no Brasil. Em 2010, quando o Adus foi fundado, havia cerca de 500 refugiados no país. Hoje são mais de 30 mil solicitações de refúgio em andamento e cerca de 10.500 pessoas já na condição de refugiadas. “É um aumento expressivo, mas o número ainda é baixo se comparado ao de países que estão mais próximos dos locais de conflito”, diz Marcelo.

Também presente no debate, o togolês Cedric Mataawè Binoa, formado em sociologia da educação e em línguas estrangeiras, está no Brasil desde 2014 e, depois de aprender português nos cursos oferecidos gratuitamente pelo Adus, hoje trabalha em sua área de formação. Além de dar aulas particulares de inglês e francês, Cedric também é professor no programa Mente Aberta, do Adus. Cedric é uma daquelas exceções que vale a pena destacar para mostrar que há, sim, espaço para todos. “Nunca senti preconceito aqui, fui muito bem acolhido”, diz ele.

Também participou do debate o jornalista Andre Naddeo. Voluntário independente, Naddeo foi duas vezes a campos de refugiados na Grécia e criou o projeto Drawfugees. Para permitir que as crianças refugiadas se expressem, Naddeo dá a elas um papel e canetas. Ali, desenham o que sentem. “É uma forma de dar voz às crianças”, diz.

Naddeo já está preparando sua próxima viagem e pretende capacitar jovens refugiados em captação e edição de vídeos. O trabalho deve gerar, futuramente, um documentário.

Após o debate, a banda Os Escolhidos, composta por refugiados da República Democrática do Congo e de Angola, apresentou algumas músicas para a plateia.

No próximo sábado continua a celebração do Dia Mundial do Refugiado. Também no – Museu de Arte Moderna de São Paulo haverá uma feira étnica das 12h às 17h30. Às 15h, o jornalista sírio Anas Obaid, que trabalha no Brasil como perfumista e vendedor de artesanatos árabe, e o nigeriano Shakiru Olawale Kareem, que estudou marketing e trabalha no Brasil como professor de inglês, vão dar depoimentos sobre suas histórias.

Comments are closed.